[OFF-TOPIC] Talento é superestimado

Um resumo sobre por que a prática deliberada, e não o talento inato, é o verdadeiro fator por trás do desempenho de excelência.
Data de Publicação

23 de agosto de 2026

Publicado originalmente no meu antigo blog.

A maioria de nós ficaria envergonhada ao comparar o número de horas que dedicamos ao nosso trabalho ou à educação com o número de horas que dedicamos a outras prioridades que julgamos mais relevantes, como as nossas famílias. Os dados demonstram que o nosso trabalho é a nossa verdadeira prioridade na vida. Apesar de todos os esforços e anos, a maioria das pessoas é apenas regular naquilo que faz. Estudos mostram que, em muitas áreas, muitas pessoas não apenas não conseguem se tornar excepcionalmente boas no que fazem, não importa quantos anos elas gastam fazendo isso, mas também frequentemente não conseguem ficar sequer melhores do que eram quando começaram.

Apenas traduzimos o vocabulário da Grécia antiga. Continuamos dizendo que pessoas bem-sucedidas são “inspiradas”, ou seja, que os deuses inspiram sua grandeza. Ainda dizemos que elas possuem um “dom”, por razões que não podem ser explicadas, dados por algo ou alguém além de si. Pessoas talentosas são tão raras que presumimos que faíscas divinas de talento não são concedidas para qualquer um. Este raciocínio tem a vantagem de explicar, melancolicamente, como a maioria de nós lida, de certa forma, com o nosso desempenho. Um talento divino é algo a cada um milhão. Ou você possui, ou não. E se você não possui – e obviamente a maioria de nós não possuímos – então consequentemente você deveria apenas esquecer de vez sobre chegar perto da excelência.

Todos nós conseguimos pensar em exemplos de pessoas que pareciam ser altamente talentosas, mas quando pesquisadores observaram os inúmeros casos de pessoas de excelência, ao menos em certos campos, a maioria das pessoas que se tornaram extremamente boas em sua área de atuação não demonstraram evidências precoces de dons. Debates calorosos sobre se esses talentos de fato existem ou não serão deixados para os pesquisadores. Para a maioria de nós, a noção realmente importante é que, no mínimo, esses talentos são muito menos importantes do que achamos. Eles não parecem ter um papel crucial que geralmente designamos a eles, e está longe de sabermos qual o papel que eles possuem de fato.

A maioria das pessoas bem-sucedidas parece ser altamente inteligente. Mas o que as pesquisas sugerem é que o elo entre inteligência e sucesso não é nem de perto tão forte quanto normalmente pensamos. Mais importante, as pesquisas nos dizem que a inteligência como frequentemente a entendemos – um QI alto – não é um pré-requisito para conquistas extraordinárias. QI é um indicador decente de performance em uma tarefa não familiar, mas, uma vez que você esteja num emprego por alguns anos, QI indica pouco ou quase nada sobre desempenho. Então, é definitivamente surpreendente, ao menos de início, descobrir que as pesquisas não apoiam a visão de que habilidades naturais extraordinárias são necessárias para o sucesso. De fato, em uma vasta quantidade de áreas, incluindo negócios, a conexão entre inteligência e habilidades específicas é fraca e, em alguns casos, inexistente.

Quanto à memória, o conceito inteiro de uma memória poderosa é problemático, pois acontece que a habilidade de memorizar é claramente criada ao invés de inata. Em poucas palavras, a opinião generalizada de que pessoas de excelência possuem memórias tremendas é, por um lado, justificada – pessoas de excelência geralmente nos impressionam com o que eles podem lembrar. Mas a visão de que essa habilidade incrível é um raro dom natural não é justificada. A habilidade de uma memória marcante está disponível para todos.

Parece surpreendente que habilidades fora da curva, especialmente inteligência e memória, não sejam necessárias para feitos extraordinários. Então, se essas habilidades não explicam a performance de alta qualidade, o que poderia explicar?

Um recurso valioso

Considere esportes, pois, além de serem interessantes, têm muito a nos ensinar sobre desempenho excelente em negócios e outros campos – e não no velho sentido de que “vencer é o único objetivo”. Todos sabemos que recordes sempre estão sendo quebrados nos esportes, mas frequentemente não notamos quão dramático esse progresso tem sido, nem as razões para isso. Por exemplo, os recordes olímpicos de cem anos atrás – representando a melhor performance de qualquer ser humano no planeta – hoje em muitos casos são equalizados em performances medianas por alunos de ensino médio. No mergulho, por exemplo, a cambalhota dupla era considerada muito perigosa. Hoje em dia, é entediante. Atletas contemporâneos são superiores não porque eles são de alguma forma diferentes, mas porque eles treinam de forma mais eficiente. Esse é um conceito importante para se lembrar.

Níveis em disciplinas intelectuais estão aumentando ao menos de forma tão rápida quanto em esportes. Roger Bacon, o grande estudioso e professor do século XIII, escreveu que uma pessoa precisaria de trinta a quarenta anos de estudo para dominar a matemática da época. Hoje em dia a matemática – a disciplina de cálculo não havia sido inventada no século XIII – é ensinada rotineiramente para milhões de estudantes. Ninguém pensa nisso, mas considere o que significa. O conteúdo intelectual é igual, o cérebro das pessoas não mudou, e setecentos anos estão longe de ser suficientes para um upgrade em poder cerebral. Em vez disso, assim como nos esportes, o nível do que fazemos com o que temos simplesmente aumentou substancialmente. As pessoas aprenderam a desempenhar mais, de forma melhor.

O aumento brusco nos altos níveis de desempenho em uma grande variedade de áreas, nos últimos anos, tem acontecido rápido demais para ser explicado por mudanças genéticas, que levariam milhares de anos para se consolidar. Por essa razão, é impossível afirmar que genes são o que fazem as pessoas triunfarem naquilo que fazem.

Por quase toda a história, o recurso escasso nos negócios era o capital financeiro. Se você tinha, você possuía maneiras de gerar mais riqueza, e se você não tinha, você não tinha. Esse mundo se foi. Atualmente, em uma mudança repentina no escopo da história, capital financeiro é abundante. O recurso escasso não é mais dinheiro. É a capacidade humana.

O caminho para a excelência

O fator que parece explicar de forma mais abrangente a excelente performance é algo que os pesquisadores chamam de prática deliberada. Saber exatamente o que é e o que não é se torna extremamente importante. Prática deliberada é difícil. Dói. Mas funciona. Mais dela resulta em boa performance. Muito dela resulta em excelente performance.

Prática deliberada é caracterizada por vários elementos, e examinar cada um deles vale a pena:

  • É moldada especificamente para melhorar a performance
  • Geralmente conta com a ajuda de um tutor ou professor
  • Pode ser repetida
  • Recebe feedback contínuo sobre os resultados
  • É muito exigente, mentalmente (quando puramente intelectual) ou fisicamente (como em esportes)
  • Não é muito divertida

Enquanto os melhores métodos de desenvolvimento estão constantemente mudando, eles são geralmente centrados em um princípio: eles devem levar o indivíduo além de suas habilidades atuais. Isso pode soar óbvio, mas a maioria de nós não faz isso nas atividades que pensamos como prática. No volante ou no violão, a maioria de nós, como adultos, estamos fazendo apenas o que já fizemos antes e esperamos manter o mesmo nível de performance que provavelmente alcançamos muito tempo atrás. Diferentemente, prática deliberada requer que você identifique com precisão certos elementos da performance que necessitam melhorar e então treine intencionalmente neles.

Noel Tichy, professor da Universidade de Michigan, ilustra essa ideia desenhando três círculos. Ele nomeia o círculo interior de “zona de conforto”, o do meio de “zona de aprendizado” e o exterior de “zona de pânico”. Apenas escolhendo atividades na zona de aprendizado se faz progresso. Esse é o local onde as habilidades e competências estão próximas, porém fora de alcance. Nós nunca conseguimos fazer progresso na zona de conforto, pois essas são as atividades que já conseguimos fazer com facilidade, enquanto na zona do pânico as atividades são tão difíceis que nós sequer sabemos por onde começar. Identificar a zona de aprendizado, o que não é fácil, e então se esforçar em ficar continuamente nela enquanto ela muda, o que é ainda mais difícil, são as primeiras e mais importantes características da prática deliberada.

Repetir uma atividade específica de novo e de novo é o que a maioria de nós chama de prática, ainda assim, para a maioria de nós, isso não é muito efetivo. Digamos que você tenha o hábito de tirar fotos ocasionalmente. Dois pontos separam a prática deliberada daquilo que a maioria de nós de fato faz. Um deles é a escolha de fazer uma atividade altamente exigente na zona de aprendizado. O outro é a quantidade de repetição. Pessoas de performance excelente repetem sua prática rigorosamente.

Prática deliberada é, acima de tudo, um esforço de foco e concentração. É isso que a torna “deliberada”, diferentemente de tirar fotos ou tocar violão de vez em quando, sem pensar muito. Isso se chama hobby. Procurar continuamente os elementos exatos que são insatisfatórios e então se esforçar ao máximo para melhorá-los é tanta pressão que ninguém consegue sustentar isso por muito tempo. Uma descoberta notoriamente consistente entre disciplinas é que quatro a cinco horas por dia parecem ser o limite da prática deliberada, e essa quantidade é frequentemente obtida em sessões que duram não mais de uma hora ou noventa minutos.

Isso leva inevitavelmente a outra característica da prática deliberada: uma receita para não ser nada divertida. Fazer coisas de que gostamos é agradável, e isso é exatamente o contrário do que a prática deliberada exige. Em vez de fazer algo em que somos bons, procuramos aquilo em que não somos bons. E então identificamos as atividades dolorosas e difíceis que vão nos fazer melhorar, e faremos isso de novo e de novo. Após cada tentativa, nos forçamos a enxergar – ou pedimos que outras pessoas nos digam – exatamente o que ainda não está correto, para podermos repetir as partes mais dolorosas e difíceis do que fizemos. A prática deliberada é essencialmente desagradável.

Serendipidade, memória e performance

A prática deliberada explica o sucesso por completo? Alguém que faz o dobro de algo vai ser duas vezes mais bem-sucedido? As respostas claramente são não. Prática deliberada não explica completamente a excelência – a realidade é muito complicada para isso. Mais precisamente, nós todos somos afetados por sorte. Timing e acaso afetam todos nós. Enquanto tem sido recorrente observar que aqueles que mais se esforçam parecem ser os mais sortudos, a realidade é que se uma ponte desmorona enquanto você está dirigindo sobre ela, nada mais importa. Sendo menos dramático, e mais sucinto, as circunstâncias (especialmente na infância) são capazes de afetar suas oportunidades em se dedicar à prática deliberada.

Frequentemente, quando vemos pessoas de excelência fazendo o que fazem, assumimos que elas praticaram por tanto tempo, após tantas vezes, que conseguem fazer isso automaticamente. Na verdade, o que elas conquistaram foi a habilidade de evitar a automaticidade. Elas nunca se deixam alcançar o automático em seu campo escolhido. A essência da prática, que é tentar constantemente fazer as coisas que você não consegue fazer confortavelmente, faz o comportamento automático ser impossível. É verdadeiro que um profissional de excelência é capaz de fazer muitas coisas em sua área com muito menor exigência cerebral que um iniciante – um piloto excelente pousa um 747 sem ficar nem um pouco nervoso. Evitar a automaticidade mediante prática contínua é outra maneira de dizer que pessoas de excelência estão sempre ficando melhores. Esse é o motivo pelo qual o profissional mais dedicado pode chegar, em sua área, a um nível que a maioria das pessoas consideraria impossível.

Construir e desenvolver conhecimento é uma das coisas que a prática deliberada faz. Tentar constantemente elevar suas habilidades em uma área requer acumular conhecimento adicional, e se manter nessa área desenvolve as conexões críticas que organizam todo o conhecimento e o fazem ser útil. Deve ser retratado, aliás, que a importância central do conhecimento para a alta performance implica sérias dificuldades para a teoria de que alta performance surge do talento inato, pois ninguém nasce com um vasto conhecimento sobre qualquer coisa.

A função crucial do conhecimento exige que os excelentes profissionais desenvolvam um atributo importante: a memória. No fim das contas, de que adianta ter tanto conhecimento se você não consegue lembrá-lo e usá-lo no momento crucial? Imagine que você soubesse todas as letras do alfabeto, mas não tivesse nenhuma ideia de como usá-las na formação de palavras. Agora imagine que lhe fosse mostrada, por cinco segundos, uma sequência de letras, digamos “lexicográfico” – e pediram que você se lembrasse das letras na ordem correta. Como você viu apenas um amontoado de letras, teria muita dificuldade para lembrá-las na ordem correta. Mas, na realidade, você reconhece essas letras como uma palavra familiar, então se lembraria facilmente de todas elas na ordem correta. Você não precisaria dos cinco segundos inteiros para estudá-las; um segundo já seria suficiente. Ainda que precisasse pensar um pouco, você até conseguiria repetir a sequência ao contrário.

No mundo real, o grande poder de uma memória funcional no longo prazo – a razão que diferencia os melhores profissionais dos demais – é que ela é construída em uma estrutura de recuperação conectada à essência da atividade. De fato, o entendimento profundo das pessoas de excelência sobre seu campo de atuação se transforma na estrutura na qual elas podem armazenar a abundância de informação que aprendem. Para ilustrar, considere dois grupos: fãs ferrenhos de corridas e observadores casuais do esporte. Ambos os grupos escreveram uma descrição sobre uma corrida. Os fãs foram muito mais detalhistas e muito mais capazes de se lembrar dos eventos que importam da corrida: as ultrapassagens, os pitstops e assim por diante. Os observadores casuais tenderam a relembrar detalhes irrelevantes, como as cores dos carros, a reação do público e o clima. O conhecimento de alto nível dos fãs forneceu um framework no qual eles armazenaram as informações que receberam.

Essa descoberta se aplica de forma geral: excelentes profissionais entendem as suas áreas de atuação em um nível maior que a média, e assim têm uma estrutura para relembrar as informações sobre elas. É claro que a memória superior de excelentes profissionais não apenas acontece. Como ela é construída em profundo entendimento da área, a memória excepcional pode apenas ser obtida via anos de estudo intenso e prática deliberada.

Nós e eles

O que vimos é que, de certa forma, nossa reação natural está correta – pessoas de excelência são fundamentalmente diferentes. Seus corpos e cérebros são realmente diferentes dos nossos de uma maneira profunda. Além disso, as habilidades deles em perceber, organizar e se lembrar de informações estão muito além de qualquer coisa que possuímos. Até os cérebros podem ser mudados. Quando crianças começam a praticar um instrumento musical, os cérebros delas se desenvolvem de maneira diferente – o córtex cerebral muda. Regiões do cérebro que escutam os tons e controlam os dedos ocupam mais espaço, e quanto mais jovem for a pessoa quando começa a praticar, maior o efeito. A capacidade de mudança do cérebro é maior na juventude, mas não acaba lá. Estamos errados em pensar que a natureza excepcional de pessoas de excelência é algum tipo de mistério eterno ou resultado predestinado. Na verdade, é o resultado de um processo, onde os elementos gerais estão claros.

A prática deliberada funciona ao nos ajudar a adquirir as habilidades específicas que precisamos em uma dada área. Por isso, aplicá-la é muito mais eficiente para conceitos básicos e fundamentais, pois o conhecimento obtido pode servir de fundação para os mais variados campos de conhecimento, especialmente aqueles mais próximos e ligados a esses conceitos. As diferenças entre experts e adultos comuns refletem um período dedicado de esforço deliberado para melhorar performance em uma área específica.

Prática e feedback

Como as exigências de alcançar desempenho excepcional são tão grandes ao longo de tantos anos, ninguém tem chance de atendê-las sem total comprometimento. Você deve saber o que quer fazer, sem duvidar ou fazer isso habitualmente. O primeiro desafio em moldar um sistema de prática deliberada é identificar os próximos passos imediatos. Em alguns âmbitos, os passos são claros. Se você quer tocar piano, as competências exatas que você deve aprender e a ordem para aprendê-las foram delineadas por gerações de professores. É similar para profissões bem estruturadas: os passos iniciais para ser contador, advogado ou médico são bem estabelecidos, e você possui professores para guiá-lo.

Em atividades práticas é valioso ter outras opiniões sobre o que você deveria estar melhorando e como está indo. As competências e habilidades que você pode escolher são infinitas, mas as oportunidades de praticá-las caem em duas categorias:

  • Oportunidades de praticar diretamente, fora do uso real da habilidade ou competência – a maneira como um músico pratica um trecho musical antes de se apresentar.
  • Oportunidades de praticar como parte do próprio trabalho. Na maioria dos empregos, a prática direta não é bem estabelecida, além de talvez ensaiar uma apresentação.

Praticar deixa suas habilidades cognitivas mais fortes. De todo modo, para a maioria das pessoas, prática consiste em apenas perda de tempo. Mas a verdade é que essa força cognitiva, assim como a força física, deteriora caso não seja preservada. A diferença é que todo jogador de futebol profissional treina e malha suas pernas todos os dias, enquanto poucas pessoas em outras áreas – como em negócios – fazem o treinamento básico do que é fundamental naquilo que fazem. Você não vai estar aprendendo novas habilidades, mas vai estar reforçando aquilo que faz suas habilidades possíveis.

Esse tipo de prática pode ser difícil de fazer sozinho, pois naturalmente envolve outras pessoas. Se puder, consiga alguém para ajudá-lo. De toda forma, sempre se lembre dos princípios: tente melhorar em um aspecto específico de seu desempenho, alta repetição, feedback imediato. Também é possível praticar trabalhando em vários departamentos de uma empresa, ou em diferentes empresas. Você vai trabalhar muito mais que as outras pessoas, e o retorno financeiro vai ser insignificante e desagradável, mas o feedback será o tesouro realmente valioso que vai fazer você se destacar dos outros.

Autorregulação e metacognição

Pesquisadores chamam essas atividades de autorregulação. Esse termo inclui uma vasta gama de comportamentos, alguns dos quais são muito relevantes para nós. Propriedades da prática deliberada foram estudadas como componentes fundamentais de autorregulação. Autorregulação efetiva é algo que você faz antes, depois e durante o trabalho – ou atividade – em si.

Autorregulação começa com a definição de objetivos. Não objetivos muito grandes, mas sim objetivos imediatos para o que você vai fazer hoje. Aqueles que possuem um desempenho mais fraco não definem nenhum objetivo, apenas fazem seu trabalho de qualquer jeito. Aqueles com desempenho medíocre definem seus objetivos de forma muito geral e são frequentemente focados em conseguir um bom resultado. Pessoas com desempenho acima da média definem os objetivos não apenas sobre o resultado, mas sobre o processo de chegar no resultado. Por exemplo, ao invés de apenas conseguir vender um produto, o real objetivo delas pode ser focar em decifrar as necessidades não ditas pelos clientes. Reduzir opções faz você desempenhar melhor. Designar objetivos específicos faz você reduzir opções. Com um objetivo claro, o próximo passo é planejar como chegar na meta. Novamente, aqueles com desempenho acima da média fazem os planos mais específicos e mais orientados a técnicas. Eles pensam exatamente, não vagamente, como chegar onde querem chegar.

A habilidade mais importante de autorregulação que pessoas de excelência usam durante a sua atividade ou trabalho é a auto-observação. Pesquisadores chamam a auto-observação de autoavaliação ou metacognição – o conhecimento sobre seu próprio conhecimento, pensar sobre seu próprio pensamento. Pessoas de alto desempenho fazem isso de forma mais sistemática que as outras pessoas.

Metacognição é importante, pois as situações mudam à medida que acontecem. Além de seu papel em encontrar oportunidades para praticar, essa habilidade é valiosa para ajudar na adaptação a situações diversas. Essas pessoas conseguem observar seus próprios pensamentos e se questionar: quais habilidades estão sendo usadas nessa situação? Posso tentar outra habilidade? Eu poderia me esforçar um pouco mais? Como estou indo? Através da habilidade de se observar, elas conseguem simultaneamente fazer e praticar o que estão fazendo.

Pessoas de excelência se julgam de um jeito diferente das outras pessoas, sendo tão específicas para se avaliar quanto são para determinar seus objetivos e estratégias. Pessoas de desempenho mediano se contentam em dizer se foram okay ou não. Os melhores se julgam pelos padrões relevantes para aquilo que tentam conquistar. Às vezes se comparam com seu melhor, às vezes com o desempenho de seus competidores, às vezes com os melhores em sua área de atuação. Qualquer comparação pode fazer sentido; o essencial, como em toda prática deliberada, é escolher uma comparação que faça você dar o seu máximo e um pouco além de suas capacidades atuais.

Uma parte crítica da autoavaliação é decidir o que causou os erros. Profissionais medíocres acreditam que seus erros foram causados por fatores fora de seu controle: meu oponente foi sortudo, a atividade era muito difícil, eu não tenho a habilidade natural para isso. Profissionais de excelência, por outro lado, acreditam que são os responsáveis por seus próprios erros. Note que isso não é só uma diferença de personalidade ou atitude. Lembre-se de que aqueles de alto desempenho estipulam metas altamente específicas, baseadas em técnicas e estratégias para eles mesmos. Eles pensaram exatamente como pretendem conquistar aquilo que querem.

Profissionais medíocres lidam com situações sem ideia de como pretendem agir ou como suas ações podem contribuir para alcançar seus objetivos. Então, quando as coisas não dão certo, como vimos, eles atribuem os problemas a forças fora de seu controle. Como resultado, não têm noção de como adaptar e desempenhar melhor na próxima vez. Não é surpreendente que apenas evitem fazer algo assim novamente, o que claramente significa chance zero de melhorar. Já as pessoas bem-sucedidas lidam com objetivos e estratégias mais específicas, já que suas experiências anteriores foram essencialmente um teste dessas mesmas metas e estratégias. Por isso, têm mais chance de acreditar na própria eficácia, pois uma análise detalhada do próprio desempenho é mais efetiva do que uma análise vaga e sem direção. Assim, essa crença fundamentada na própria efetividade as ajuda a se pressionar e a seguir tentando, criando um feedback loop positivo.

O tiro de largada

A razão de vencedores do prêmio Nobel e outros inovadores estarem ficando cada vez mais velhos não é porque estão vivendo por mais tempo, mas sim porque se leva muito mais tempo para que façam uma contribuição em primeiro lugar, e isso está acontecendo em diversos campos. O conhecimento é a fundação da excelente performance, e em campos onde avanços importantes são feitos continuamente, dominar todo o conhecimento acumulado leva mais tempo. Isso é fácil de ver na física. Quando você pensa em todos os gigantes do século XX nesse campo – Planck, Bohr, Heisenberg, Fermi, Feynman, e outros – é clara a razão pela qual o aspirante a físico de hoje precisa de muito mais anos de preparação e de estudo que Einstein teve. Mas esses mesmos princípios são consistentes além da física, estendendo-se a todas as ciências baseadas em informação.

As circunstâncias nas quais as pessoas começam a se desenvolver no seu eventual campo de atuação podem causar um grande efeito, até em áreas relacionadas aos negócios e em outros campos onde o desenvolvimento geralmente acontece mais tarde que na infância. Descobertas sobre ambientes efetivos de apoio contêm lições que podem ser aplicadas de forma mais generalista.

Como vimos repetidamente, se tornar de alto padrão em qualquer coisa parece exigir acumular milhares de horas de foco em prática deliberada. Por exemplo: os melhores violinistas em Berlim possuíam milhares de horas de prática aos vinte anos, chegando ao ponto onde estavam praticando vinte e oito horas por semana e gastando muitas horas adicionais estudando, tendo aulas, se preparando, etc. Para um adulto que enfrenta responsabilidades de família, carreira e boletos para pagar, dedicar tempo a atividades puramente de desenvolvimento – que custam dinheiro ao invés de gerar dinheiro – seria extremamente complicado. Apenas na infância e adolescência a vontade e o tempo estarão disponíveis. A realidade cria outra vantagem de começar cedo, uma que já vimos antes: se leva muito mais tempo para se tornar excelente hoje em dia, começar mais cedo faz toda a diferença. Numa área onde pessoas podem começar cedo, começar tarde pode colocar você numa eterna e impossível missão de alcançar outros.

Após vastas entrevistas com pessoas de alto desempenho e suas famílias, descobriu-se que os ambientes domiciliares compartilhavam alguns traços. Apesar das diferentes origens, profissões e rendas, seus lares tenderam a ser orientados às crianças. As crianças eram importantes, e os pais estavam dispostos a fazer muito – quase tudo – para ajudá-las. Esses pais também acreditavam numa forte ética de trabalho. O trabalho vinha antes da diversão, as obrigações tinham que ser cumpridas, objetivos tinham que ser perseguidos. Se destacar, fazer o seu melhor, gastar seu tempo de forma construtiva. Esses princípios eram enfatizados constantemente.

Os pais, de fato, escolhiam os professores, que eram de grande importância quando seus filhos progrediam e precisavam ser desafiados em níveis mais altos. O primeiro professor da criança quase sempre era alguém conveniente – algum vizinho, conhecido ou parente. Mas invariavelmente essas crianças progrediam até um nível onde necessitavam de um professor melhor, e esses professores frequentemente não eram convenientes. Os pais tinham que dedicar muito tempo e energia para encontrar o professor certo e então levar a criança até as aulas. No fim das contas, os pequenos caminhavam em direção a alguma forma de professor de alto nível, um passo que requer maiores sacrifícios de tempo, dinheiro e energia, tanto de pais quanto de estudantes.

Mas a lição é que esses sacrifícios valeram a pena. Além de escolher os professores apropriados, os pais nessa pesquisa monitoravam a prática de seus filhos, tinham certeza de que havia tempo e que as crianças a faziam. É interessante observar mais detalhadamente isso não apenas porque prática é objetivamente importante para o sucesso, mas também porque as crianças em particular pareciam odiá-la. Adolescentes também relataram o típico baixo interesse e pouca energia para estudar. Mas em um ambiente estimulante e acolhedor, os estudantes eram muito mais entusiasmados, atentos e alerta para estudar. Pais encorajavam a curiosidade de seus filhos e respondiam suas perguntas com muito carinho – e eram colaborativos, com todos tendo papéis e deveres claros, e os pais se esforçavam para apoiar a prática de seus filhos.

Excelência até o fim

Uma das descobertas mais consagradas e menos surpreendentes na psicologia é que, quando envelhecemos, ficamos mais devagar. Lembrar das coisas, resolver problemas que não são familiares – essas coisas levam duas vezes mais tempo quando temos sessenta anos do que quando estávamos nos nossos vinte e poucos anos. Nos movemos mais devagar. Coordenar nossos braços e pernas é mais difícil. Todos nós já vimos isso acontecer, e todo mundo na meia-idade, ou mais velho, já sentiu algo assim. Desta forma, é surpreendente descobrir que isso não é nem um pouco verdadeiro, e não em apenas alguns casos, mas de maneira geral. De alguma maneira, pessoas de excelência dão um jeito de continuar suas conquistas de alto nível muito além do ponto onde a decadência relacionada ao envelhecimento parecia tornar essas coisas impossíveis.

Estudos em uma ampla gama de áreas – gerenciamento de empresas, pilotagem de aeronaves, música e outros – nos mostram que pessoas de alto desempenho sofrem do mesmo declínio em velocidade e habilidades cognitivas gerais que todos nós – exceto em seu campo de expertise. Por exemplo: um estudo de pianistas mais velhos de alto nível mostrou que sua velocidade geral de raciocínio diminuiu com o avanço da idade, assim como previsto. Na população geral essa desaceleração é evidente de inúmeras formas. Psicólogos mensuram quão rápido as pessoas conseguem apertar um botão para responder a uma pergunta ou quão rápido conseguem fazer movimentos com os dedos. Essas coisas ficam mais devagar com a idade. Porém, enquanto os pianistas desaceleraram, como todo mundo, em quão rápido conseguiam responder a uma pergunta, eles não ficaram nem um pouco mais lentos quando se tratava de habilidades relacionadas ao piano, como coordenação nos dedos. Quando se trata de atividades que fazem parte de sua área de expertise, pessoas de alto desempenho conseguem manter sua alta performance mesmo depois que suas habilidades fora dessa área foram se deteriorando.

Nós vimos que a excelência não vem de habilidades gerais superiores. Ela vem de competências específicas desenvolvidas de uma maneira particular por um longo período. Então faz sentido que, enquanto as habilidades gerais deterioram com o avanço da idade, esse declínio não afete as competências que são a fundação do desempenho acima da média. Todavia, essa história deve estar contada pela metade, pois é claro que há inúmeros exemplos de pessoas de excelência que tiveram suas habilidades deterioradas com o tempo. Muitas, em diversas áreas, gradualmente desaparecem após breves carreiras de sucesso. Então por que algumas conseguem manter a excelência e outras não? A explicação parece ser o fator que as fez excelentes em primeiro lugar: a prática deliberada.

Apenas experiência, e até décadas dela, não é suficiente para fazer alguém alcançar excelência, muito menos é suficiente para desafiar os efeitos do envelhecimento, mesmo em sua área de especialização. Inúmeros estudos mostraram que apenas continuar trabalhando não é suficiente para mitigar o inevitável declínio que vem com o tempo. É necessário algo a mais, e o que é necessário é esforço, foco e prática deliberada. Esses pianistas de alto nível que mantiveram suas competências no piano ao envelhecerem foram comparados com um grupo de pianistas amadores, alguns deles com quarenta anos de experiência, mas que havia tempo tinham desistido do que poderia ser chamado de prática deliberada. Esses amadores, diferentemente dos experts, sofreram a previsível desaceleração relacionada à idade.

Em geral, prática bem estruturada, após tempo suficiente, faz com que as pessoas consigam contornar as limitações que, caso contrário, atrasariam o desempenho, e contornar essas limitações é fundamental para a alta performance em idade avançada. Em um estudo com jogadores de xadrez de alto nível, os mais velhos faziam as jogadas tão bem quanto os mais jovens, mas de um jeito diferente. Não consideravam todas as jogadas possíveis, porque não conseguiam, mas compensavam com um conhecimento maior das posições. De forma mais abrangente, a prática deliberada contínua faz com que os experts mantenham habilidades que iriam enfraquecer com o tempo, e desenvolvam outras habilidades e estratégias para compensar o declínio que é inevitável. Assim como os métodos aperfeiçoados de prática e treino aumentaram os padrões de desempenho em praticamente todas as áreas, eles também estão possibilitando que pessoas de excelência continuem bem-sucedidas e em alto nível por mais anos do que se achava possível. Vemos esse efeito de forma mais acentuada nos esportes, onde a idade média de atletas profissionais vem aumentando ano após ano.

Nós também podemos treinar nossas habilidades mentais muito mais tarde na vida do que se acreditava anteriormente. Por décadas a visão convencional na medicina era a de que, uma vez que chegamos à vida adulta, só podemos perder neurônios, e que a habilidade de nosso cérebro se adaptar a novos desafios, denominada plasticidade cerebral, acaba. Novos estudos mostram que tudo isso é falso. Nossos cérebros são perfeitamente capazes de criar novos neurônios na terceira idade, quando as condições exigem, e a plasticidade do cérebro não para com o tempo. Dê ao seu cérebro o treinamento certo – por exemplo, fazendo duas coisas ao mesmo tempo – e a plasticidade vai aumentar nas regiões que normalmente mostram a maior atrofia mais tarde na vida.

Nosso insight sobre como é possível manter alto desempenho nas décadas tardias da vida nos ajuda a entender os casos em que isso não acontece. A maioria das pessoas abandona a prática deliberada necessária para sustentar sua performance. Não podemos necessariamente criticá-las. Isso pode ser uma decisão totalmente racional – por exemplo, no caso de um jogador profissional de futebol que já ganhou milhões de euros e tem pouco mais a ganhar, mas muito a perder, como uma lesão grave, ao continuar jogando. De maneira geral, toda pessoa de alto nível está continuamente fazendo uma análise de custo-benefício quando se trata de prática deliberada, e quando os anos passam, os custos aumentam enquanto os benefícios diminuem. Aumentar a performance fica mais difícil e o profissional foca mais em manter um dado nível, e quando até isso se torna impossível, ele procura maneiras de compensar suas fraquezas. As horas demandadas para tudo isso continuam aumentando, e é fácil entender como pessoas de excelência podem sentir que o esforço não vale mais a pena. O ponto central é, de toda forma, que por muitos anos na vida de uma pessoa – mais anos do que a maioria de nós acredita – a deterioração de desempenho no nosso campo de atuação escolhido não é um processo imbatível. É, ao invés disso, uma escolha entre quanto mais esforço queremos investir em nossa performance. Eventualmente, é claro, a performance de todos nós diminui. Até com a prática deliberada mais diligente não se consegue vencer a queda de braço contra o tempo.

O efeito multiplicador

O conceito é simples: uma pequena vantagem em algum aspecto pode desencadear uma série de eventos que produzem maiores vantagens. Cada aumento na competência corresponde a um ambiente melhor e, por sua vez, o melhor ambiente aprimora ainda mais a competência. Observe que esse efeito multiplicador não é responsável apenas pelo aperfeiçoamento de habilidades ao longo do tempo, mas também pela motivação que impulsiona a melhoria.

“Em todos os campos, a maioria desses jovens estudantes era considerada rápida em sua aprendizagem por seus primeiros professores. Se eram ou não realmente rápidos em relação aos outros não se sabe. De toda forma, a atribuição de rapidez pelo professor foi uma grande fonte de motivação. O professor logo os considerava alunos ‘especiais’, e os estudantes valorizavam isso.”

Bem antes, o efeito multiplicador obviamente já estava desenvolvendo a motivação desses alunos.

“Quando começaram a receber reconhecimento pelo talento nos anos iniciais de instrução, o investimento da criança nesse talento foi maior. Então, agradar os professores ou seus pais não era mais sua fonte de motivação. Isso havia se tornado a especial área de interesse do indivíduo.”

O conceito do efeito multiplicador está embutido na teoria fundamental da prática deliberada. Parte da maneira como isso funciona se dá pelo fato de as capacidades de um iniciante serem tão modestas que ele consegue lidar com pouca prática deliberada, já que ela é algo muito demandante. Mas essa pequena prática aumenta as habilidades dessa pessoa, tornando possível praticar mais, o que leva as habilidades a aumentarem ainda mais. Em praticamente toda área, iniciantes não conseguem suportar mais de uma hora de prática por dia, às vezes muito menos. Mas quando chegam a níveis de excelência, conseguem lidar com quatro a cinco horas por dia. Não é totalmente correto dizer que apenas a prática causou o desempenho, ou que o desempenho ajudou a lidar com a prática. Com o passar do tempo, uma coisa complementou a outra.

A evidência do efeito multiplicador é poderosa, faz sentido e explica muita coisa. Porém, surge uma indagação significativa: o que faz o efeito acontecer? Se tudo começa com alguma pequena vantagem – uma pequena diferença que de alguma forma é o fator decisivo e começa um feedback loop positivo de motivação e desempenho – de onde essa diferença se origina?

Eventos e situações sem nenhuma relação com traços inatos podem iniciar o efeito multiplicador. Um exemplo que parece bem recorrente é o que acontece com quem começa a treinar numa idade mais jovem que os outros na área. Muitos pesquisadores observam que, quando pessoas começam a aprender habilidades em qualquer área, geralmente são comparadas não com os melhores do mundo naquela área, mas com aqueles de sua idade. Ninguém considerou se o pequeno Ayrton Senna seria uma ameaça para os melhores pilotos; o que importava era que ele era muito melhor que os outros aspirantes a pilotos de kart. Uma maneira de ficar ótimo e desempenhar melhor que outros da mesma idade é começar mais cedo (como Senna fez), acumulando assim mais prática deliberada. Se destacar em qualquer idade é uma maneira excelente de atrair mais atenção e elogios, o que é combustível para o efeito multiplicador, e tudo isso pode ser feito sem precisar de qualquer talento inato. É necessário ressaltar que as pesquisas sobre nadadores, jogadores de xadrez, violinistas e pianistas mostram que os mais bem-sucedidos começaram a treinar na juventude.

Uma maneira similar de despertar o efeito multiplicador é aprender habilidades num local onde a competição é esparsa. É muito mais fácil se destacar na matemática quando na sua cidade há outras cem crianças da sua idade do que quando há cem mil. Muitos jovens prodígios relataram a mesma experiência: ser celebridades locais, apenas para passar a um nível mais alto de competição e encontrar muitos outros que são ao menos tão bons quanto eles. Um pianista se lembrou de sua chegada a uma escola de elite de música:

“Foi um choque, não é fácil descobrir que há outras pessoas que realmente tocam muito bem quando você esteve isolado e acostumado a pensar que era alguém.”

Mas está tudo bem: nessa hora, essas pessoas já tinham desenvolvido a motivação para seguir em frente.

Parece plausível que um desempenho levemente superior numa idade jovem ou num ambiente de pouca competição, não importando como esse desempenho foi alcançado, possa gerar o pequeno elogio extra que constrói a motivação para uma prática mais intensa. Mas, já que o processo é circular, poderíamos começar esse looping sem desempenho superior, apenas com um pouco mais de elogio? Isto é, poderíamos simplesmente dizer que alguém é ótimo, independente do desempenho, motivar a prática adicional que leva a uma melhor performance, atraindo mais elogios, e assim por diante? Isso também parece ser plausível. Além disso, muitos desses estudantes tiveram pais que diziam que eram muito especiais, como os pais frequentemente fazem, independente de alguma evidência. Aqui, novamente, parece que um fator relativamente independente de qualquer habilidade inata poderia dar início ao efeito multiplicador.

Conclusão

O que você quer – realmente, profundamente quer – é fundamental, porque a prática deliberada é um grande investimento. Se tornar alguém de excelência exige o maior investimento que você fará – muitos anos de sua vida dedicados ao seu objetivo – e apenas alguém que realmente quer alcançar esse objetivo com vontade extraordinária pode conseguir. Geralmente vemos que o preço que as pessoas pagam nessa escalada ao topo de qualquer área, mesmo que seus casamentos ou outros relacionamentos sobrevivam, é que seus interesses fora de seu campo tipicamente não sobrevivem. Geralmente, como forma de conseguir continuar trabalhando, relacionamentos comuns na esfera pessoal são sacrificados. Essas pessoas são comprometidas obsessivamente com seu trabalho. Vida social ou hobbies são quase inexistentes.

A segunda pergunta é ainda mais profunda. No que você acredita? Você pode escolher? Você acredita que, se trabalhar de forma apropriada, com foco intenso por dias e anos sem fim, seu desempenho vai melhorar consideravelmente e eventualmente alcançar os mais altos níveis? Se você realmente acredita nisso, então há uma chance de que você fará o que é necessário para alcançar a excelência.

As evidências mostram que não há atalhos nem garantias fáceis. Mostram que o preço do sucesso e da performance de alto nível é extraordinariamente alto. Talvez seja inevitável que não sejam tantas as pessoas que escolhem pagar por isso. Mas as evidências também mostram que, entendendo como se tornar excelente, todo mundo pode melhorar. Acima de tudo, o que a ciência diz é um informe surpreendente e libertador: a excelência não é reservada a alguns escolhidos. Ela está disponível para você e para todo mundo.


Baseado em: Colvin, G. Talent is Overrated: What Really Separates World-Class Performers from Everybody Else.